
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Depois de um longo tempo, cá volto pra mais uma série de pataquadas a esmo. Atendendo a pedidos calorosos de meus pais e pra desespero do restante da minha lista de endereços, volto a este espaço pra pouco dizer, confundir um cadinho mais e em lugar nenhum chegar. Alô! Alô! Lúcio Costa... onde fica o trem de pouso dessa joça?
Pois bem, estava com saudades de poder me dar esse prazer de voltar a escrever bobagens. Depois que sai do Acre vivenciei tanta coisa nova ao mesmo tempo e em tão pouco tempo que não tive como passar por aqui. Aliás, ao que parece, não é só na minha vida não. Já perceberam como esse ano já passou da conta? O que aconteceu nos últimos 6 meses faz com que 2011 se torne uma forte candidata ao título do “ano que já deu o que tinha que dá”. Vou te dizer viu: se não é o fim dos tempos, é o primeiro bis... não é possível!. Acompanhe comigo os últimos 6 meses: o “derretimento” catastrófico da região serrana do Rio, a terra em transe no Japão, a usina nuclear construída na terra em transe do Japão (não, não foi em Portugal), a chiadeira com o Tiririca na comissão de educação da Câmara (não pode?), o “pinçamento” de Bin Laden no Paquistão, o doente “bulynado” de Realengo, o assalto a mão armada ao código florestal, tucanaram o casamento gay (agora é união homoafetiva...ui!), a morte da Eguinha Pocotó, o dom divino da multiplicação do Palocci, o desapego religioso nas revoltas árabes, o encontro do avião no chão do mar... Ufa! 2012, cadê você?
Mas, a bem da verdade, a despeito da avalanche de fatos que vem nos atropelando, a novidade ao meu olhar ainda é essa tal cinquentona Brasília. Já ouviu falar? Pois é, a nossa tão (mal) falada capital tem cheiro de coisa nova pra esse escritor que vos escreve e, por isso mesmo, vou me dar o direito também de colocar minha colherada nessa cumbuca. Como não? Se já me arrisquei a falar bem e mal do Acre por 7 anos, como agora vou me acovardar com o Planalto Central? De modo algum. E como sempre tive a sorte de gostar dos lugares por onde passei (Brasília não é diferente), além daqui ser a capital do meu país (e por isso quero explicações!), me sinto muito a vontade em futricar por essas bandas.
Com o seu jeito de “maquete em tamanho natural”, Brasília é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que não tem nada a ver com o Brasil, ela é cara do país. Construída numa lógica “rodocartesiana” de enxergar a vida, a nossa capital se parece com o Brasil justamente no que tenta negá-lo: as desigualdades escondidas em suas tesourinhas. Brasília é uma cidade que, a quem chega, faz questão de deixar o seu recado: “Assim como o poder, eu sou para poucos, não dou explicações, vim pra cá ganhar dinheiro e fujo nos finais de semana”. Pois é, a considerar que ela é a capital do Brasil, percebê-la de nariz empinado e cheia de não-me-toques, é bastante sintomático e, muitas vezes, antipático.
Com o apartheid de suas linhas e desenhada como um avião, Lucio Costa não planejou (será que não?) o “bagageiro” em que se transformaram as cidades satélites no entorno do Plano Piloto. Grandes “cidades dormitórios”, o cinturão no entorno de Brasília é possível ver algo do irradiamento da riqueza vinda das margens do Paranoá. Mas a sua grande característica ainda é uma ausência crônica do Estado que faz de algumas delas estarem entre as mais violentas do mundo. Isso a 20, 40 quilômetros do Palácio do Planalto.
Mas ao contrário do que vocês devem estar pensando, os brasileiros comuns tem seu playground no Plano Piloto. Tá pensando o quê?! Mas é pra olhar e desocupar rapidinho... como se sabe, não se pode facilitar com esse povo brasileiro. Deixa que eu explico:
Pra quem não conhece Brasília, o cruzamento das asas do avião com o corpo do avião, fica a rodoviária do Plano Piloto. Ali chegam e saem os ônibus que correm todo o Distrito Federal. Ela fica de frente a Esplanada dos Ministérios. Acima da rodoviária é um imenso viaduto, não só de carro, que você acessa por ela. Uma espécie de terraço da Rodoviária. De lá você tem uma vista privilegiada da Esplanada dos Ministérios, com o Congresso Nacional ao fundo. É dali que o povo que vem das cidades esquecidas do entorno de Brasília, tem o contato com o poder em Brasília. É dali, e somente ali, que o desenho de Brasília propicia o acesso ao “brasileiro que anda de ônibus” ao poder em Brasília. É apenas uma vista ao longe, que de tão fria dá a mesma sensação que você tem ai da televisão.
Fico pensando de como era a capital do país no Rio de Janeiro e toda aquela miscelânea de gente, naquele emaranhado do traçado urbano carioca. Apesar de gostar de simetria, ainda vejo mais charme no “compromisso com o caos” das cidades não planejadas, onde as ruas e os becos ainda ganham nome de gente.
Hoje temos uma capital com o “pequeno detalhe” de não entender o país e um país que não se enxerga na sua capital. No entanto, acreditem, Brasília é Brasil. Não tenho dúvidas de que nossa capital é uma grande façanha brasileira, de um tempo em que entendíamos esse imenso continente como “de Osasco pra lá, é tudo Mato Grosso”. Talvez seja isso: de tão impressionante e diferente, nossa capital é um grande avião que decolou... mas não aprendeu a aterrissar.
Felipe Mendonça
Servidor Público e morador do suvaco da Asa

9 comentários:
Meu jovem escritor Felipe, antes de tudo parabéns pelo artigo,
Você sabe que sou (fui) professor de Português, e, quando leio qualquer artigo, primeiro analiso o conteúdo,só depois é que vejo se o articulista conhece a língua de Camões ou de Machado de Assis.
Lá no meio de seu artigo, você cometeu um erro crasso de Concordância Verbal, quando o verbo está na frente de um sujeito composto. Você assim subscreveu: "Ali SAI chega e sai os ônibus...", quando deveria estar escrito: ALI SAEM E CHEGAM OS ÔNIBUS.
Mais corretamente, houve um outro problema gramatical aí de regência verbal. Os verbos "sair" e "chegar" possuem regências diferentes. Um exige a preposição "de" e outro, a preposição "em". Em assim sendo, dever-se-ia escrever da seguinte maneira: "DALI (DE+ALI)SAEM E ALÍ (A+ALI CHEGAM...". Deu para entender?
GOSTEI DEMAIS DE SEU ARTIGO, CARA!!! Sua versatilidade e espontaneidade o fazem um grande e promissor escritor da Língua Portuguesa tão maltratada não só por jornalistas, como também por filólogos e linguistas que inventaram outras regrinhas de acentuação e outras "cositas" mais, apenas para agradar a gregos e troianos de outras seis nações que falam nosso idioma!!! É isso aí!
Um grande abraço.
Prof. JCBarbosa - São José do Alegre - MG
P.S. Aguardamos sua presença aqui no final de julho, quando teremos a noSsa festa TRADICiONAL!!!
Um abraço de
Felipe querido, anda dando umas pernadas na minha terrinha natal? Que legal!
pois então, em agosto estarei por aí de férias e, se quiser, posso te apresentar alguns lugares que talvez ainda não conheça, como as inúmeras mágicas e revigorantes cachoeiras das proximidades do federal district.
grande abraço acreano maninho!!
Thiago.
Oi Professor,
obrigado pelo puxão de orelhas....
Mas no scrapbook não!!!! heheheh
Abraços
Felipe
ADOREI, como sempre, amigo!!!
Estive em Brasília pela primeira (e única) vez em 2009. Achei uma cidde muito estranha mesmo. E tive essa mesma má impressão da tal rodoviária... ônibus caquéticos levando e trazendo o "povo brasileiro" das periferia para o centro (e bota centro nisso!) do poder... lugarzinho esquisito.
Nunca perca esse hábito de escrever... você é ÓTIMO!!
beijos com muits saudades!!
Felipe,
adorei o texto!! Fui à Brasilia duas vezes, e a cidade me causou um incômodo enorme.
Acho que vc descreveu muito bem as contradições da cidade.
Escreva mais aí da capital!
Beijos,
Renata
Adorei o texto! Parabéns!
Muito bom seu texto meu bem.
Descreveu muito bem a imagem que eu tenho da cidade.
Tô feliz que você tenha voltado a escrever. :)
Bjos!
como sempre, conseguindo expressar o que muita gente pensa e não consegue sintetizar. Acho uma cidade linda, um céu maravilhoso, mas que nunca poderia ser a capital do país, pela concentração do PODER, e o foco no PODER!
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